IPO da SpaceX coloca o mercado financeiro no centro da disputa tecnológica entre EUA e China

  • 13/06/2026
(Foto: Reprodução)
SpaceX leva à bolsa de valores uma aposta que vai além dos foguetes A corrida espacial do século XXI não coloca Estados Unidos e China em lados opostos apenas na Lua. Ela também opõe dois modelos distintos de financiamento para tecnologias consideradas estratégicas no tabuleiro geopolítico. De um lado, Pequim avança por meio de empresas estatais, planejamento de longo prazo e recursos públicos. Do outro, a SpaceX conseguiu US$ 75 bilhões (R$ 382,6 bilhões) diretamente em Wall Street para financiar projetos que vão de redes globais de comunicação à inteligência artificial e à infraestrutura orbital. (entenda mais a seguir) 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Com a abertura de capital da companhia de Elon Musk acontecendo em um momento em que as duas maiores economias do planeta disputam liderança em áreas consideradas decisivas para as próximas décadas, o IPO amplia a participação do mercado financeiro em uma corrida tecnológica e geopolítica que extrapola o espaço. 🔎 Um IPO (Initial Public Offering, em inglês) é a primeira oferta pública de uma empresa, quando vende parte de suas ações e passa a ser negociada na bolsa de valores. O objetivo é captar recursos para expandir operações, investir em projetos ou reduzir dívidas. A mesma corrida, modelos de financiamento diferentes Durante boa parte da história da exploração espacial — especialmente na Guerra Fria —, o avanço tecnológico foi financiado principalmente pelos governos. Tanto os EUA quanto a então União Soviética trataram o setor como uma questão de interesse nacional, destinando recursos públicos ao desenvolvimento de foguetes, satélites e missões tripuladas. ➡️ Nos EUA, esse modelo continua presente. Criada em 1958, a National Aeronautics and Space Administration (Nasa) é financiada pelo orçamento federal aprovado anualmente pelo Congresso. Para 2026, por exemplo, os parlamentares destinaram à agência US$ 24,4 bilhões (R$ 124,5 bilhões), valor equivalente a cerca de 0,35% dos gastos do governo americano. Parte desses recursos financia programas conduzidos pela própria Nasa, mas outra parcela chega ao setor privado por meio de contratos. A missão Artemis II, por exemplo, contou com a participação de empresas como Boeing, Northrop Grumman e Lockheed Martin no desenvolvimento de equipamentos e sistemas. Gif mostra astronautas da missão Artemis em gravidade zero Reprodução Nos últimos anos, porém, o modelo americano passou a incorporar um novo elemento. Além de trabalhar em parceria com o governo, empresas privadas passaram a recorrer ao mercado financeiro para financiar projetos próprios de expansão. A SpaceX talvez seja hoje o exemplo mais visível dessa transformação. 📡 A companhia construiu a rede Starlink, ampliou sua presença em contratos governamentais e militares, e incorporou ativos ligados à inteligência artificial. Ao mesmo tempo, Musk ampliou sua influência dentro do governo americano na gestão de Donald Trump, na qual chegou a comandar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês). Para Álvaro Machado Dias, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), projetos como o Starship, futuros centros de processamento de dados em órbita e iniciativas ligadas à infraestrutura lunar exigem uma escala de recursos que dificilmente pode ser sustentada apenas por investidores privados tradicionais. Além disso, segundo ele, a companhia já ocupa uma posição estratégica para os interesses americanos, o que amplia a relevância de seus planos de expansão. "Vale notar que Musk faz isso num momento em que a SpaceX já opera, há muito, como infraestrutura estratégica do Estado americano: lança satélites do Pentágono, sustenta o principal sistema de comunicações militares orbitais e tornou-se peça decisiva em conflitos como o da Ucrânia." Por outro lado, na China, a lógica permanece mais concentrada no Estado: o programa espacial é conduzido a partir de metas definidas pelo governo, com participação de empresas estatais e investimentos públicos de longo prazo voltados à ampliação da presença chinesa no espaço. É justamente nesse ponto que o IPO da SpaceX se torna mais do que uma operação financeira. Enquanto o modelo chinês continua apoiado principalmente em recursos estatais, a empresa de Musk, pretende recorrer ao mercado financeiro para financiar uma nova etapa de crescimento. Diogo Cortiz, professor especializado em tecnologia e inovação da PUC-SP, observa que essa movimentação acontece em um momento de acirramento da disputa tecnológica entre EUA e China. Na avaliação dele, a SpaceX ocupa uma posição singular porque reúne, sob o mesmo grupo, áreas consideradas estratégicas na disputa entre as duas maiores potências do planeta. Segundo o professor, essa competição se concentra hoje em três frentes principais: a exploração espacial; o controle de sistemas de comunicação; e a capacidade de processamento necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial. “Quando observamos essas três dimensões, em conjunto, fica claro que a SpaceX não é apenas uma empresa de foguetes. Ela está presente em áreas fundamentais para qualquer país que pretenda disputar liderança tecnológica — seja na corrida espacial, na conectividade global por meio da Starlink ou no avanço da inteligência artificial”, afirma. China e SpaceX aceleram corrida espacial China corre para alcançar os americanos — e a própria SpaceX Se a SpaceX se tornou a principal vitrine do modelo americano de exploração espacial, a China aparece hoje como sua principal concorrente. A disputa envolve desde missões lunares até redes de satélites e capacidade de lançamento. Um levantamento do astrofísico Jonathan McDowell, pesquisador do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, mostra que a China foi a segunda maior potência espacial do mundo em número de lançamentos orbitais em 2025, com 92 missões. O resultado coloca o país bem à frente de outras potências espaciais, como a Rússia, mas ainda distante da liderança americana. No mesmo período, os EUA realizaram 181 lançamentos — quase o dobro do total chinês. Mais do que isso: sozinha, a SpaceX respondeu por 170 missões, número superior ao registrado por qualquer outro país. Veja abaixo: EUA ampliam vantagem sobre a China na corrida espacial Arte/g1 Segundo Franco Granda, analista sênior da PitchBook, a competição tende a se intensificar à medida que os dois países avançam em seus programas lunares. “A SpaceX trabalha com a meta de realizar uma missão lunar não tripulada em 2027, enquanto Pequim pretende levar astronautas chineses à superfície da Lua até 2030.” A disputa pelas constelações de satélites A disputa, porém, não acontece apenas no espaço sideral. Ela também está em curso na órbita terrestre, onde a SpaceX construiu uma vantagem difícil de ignorar. ➡️ Mais do que uma disputa por presença no espaço, trata-se de uma competição pelo controle das redes de comunicação que poderão sustentar serviços de internet, defesa e inteligência artificial nas próximas décadas. Os dados compilados por McDowell mostram que, no final do ano passado, a rede Starlink concentrava cerca de dois terços de todos os satélites ativos do planeta. Dos 14,1 mil equipamentos em operação, aproximadamente 10 mil pertenciam ao sistema da SpaceX. A diferença também aparece no ritmo de lançamento de satélites para essas redes orbitais. Somente em 2025, os EUA fabricaram e colocaram em órbita cerca de 3,4 mil satélites de comunicação de grande porte, quase todos destinados à constelação Starlink (3.267). No mesmo período, a China lançou 195 satélites da mesma categoria. Só que Pequim tenta reduzir essa distância. Segundo a PitchBook, o país concentrou seus esforços em dois grandes projetos: a Guowang, constelação estatal com previsão de aproximadamente 13 mil satélites, e a Qianfan, iniciativa comercial planejada para reunir mais de 1.296 unidades. Além da escala industrial, a China conta com uma vantagem geopolítica importante fora do círculo tradicional de aliados dos EUA. Segundo os especialistas consultados pelo g1, o país vem combinando capacidade industrial, preços subsidiados e relações diplomáticas construídas por meio da iniciativa Cinturão e Rota — megaprojeto global de infraestrutura, comércio e cooperação que reúne mais de 150 países parceiros, com maior presença na África, Ásia e América Latina. Essa capilaridade internacional, porém, não elimina os obstáculos enfrentados pelas empresas chinesas em outros mercados. Restrições geopolíticas e regras de exportação adotadas por países ocidentais — especialmente aliados históricos dos EUA — dificultam o acesso a contratos comerciais em diversas regiões. “O setor comercial da China ainda está de cinco a dez anos atrás da SpaceX em termos de reutilização, e a segmentação geopolítica significa que os mercados chinês e ocidental são, na prática, arenas competitivas separadas”, observa Granda. Bandeiras da China e dos Estados Unidos em uma rua chinesa antes da visita de Donald Trump ao país, em 13 de maio de 2026 Reuters/Maxim Shemetov

FONTE: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/13/ipo-da-spacex-coloca-o-mercado-financeiro-no-centro-da-disputa-tecnologica-entre-eua-e-china.ghtml


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